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| 25 May 2001 Gil's report... Ola, Quando cheguei ao campo 5, a 7.800m de altitude, apos cumprir uma das etapas mais dificeis da escalada do Everest, a subida da espetacular crista norte, Rozani olhou para mim com olhar exausto e apreensivo, e disse - Gil, precisamos descer para o Colo Norte, David esta mal; neste momento terminava a nossa ascencao a maior montanha da Terra. Tinhamos chegado ao limite da seguranca - a integridade fisica dos membros do time estava muito acima do cume da montanha. Partimos do Campo Base no dia 12 de maio rumo ao Topo do Mundo. Seria a nossa ultima ida para cima, agora para tentar chegar ao cume. O tempo como sempre mal, muita neve e vento. Apos dois dias de caminhada chegamos ao Campo Base Avancado (ABC - 6.500m) onde ficariamos de prontidao de acordo com a meteorologia. No dia 15 de maio, com total incerteza do tempo, Michael e Terry, dois americanos clientes da Internatinal Mountain Guides, empresa que compartilhavamos o campo base e o base avancado, partiram para a escalada final do Everest, acompanhados de quatro fortes Sherpas. O tempo sempre ruim causava apreensao. Acompanhavamos pelo radio cada passo dos 6 escaladores. No ABC, uma pequena cidade de barracas, todas as expedicoes trocavam informacoes acerca da previsao da meteorologia. 18 de maio, o dia previsto para eles chegarem ao cume, amanheceu ensolarado, sem vento, perfeito para chegar ao topo. Foi um presente merecido para eles, e os seis foram os primeiros do milenio a alcansar o topo do mundo. Euforia no ABC, pois alem do sucesso deles a meteorologica previa tempo otimo ate o dia 24, pelo menos. Partimos no dia seguinte para o Colo Norte (7100m), acompanhados de, pelo menos, mais de 30 escaladores de diversas partes do mundo. Entre estes estavam Claire e Bertrand, um casal de franceses que iriam tentar decolar de Paraglider do cume em voo duplo. Chegamos exaustos no Colo Norte, porem entusiasmados pelo bom tempo. No dia seguinte, enfrentariamos a Crista Norte do Everest ate o Campo 5 a 7.800m de altitude, o trecho mais dificil de toda a escalada afora o dia final de chegada ao cume. 20 de maio acordamos as 4 horas e apos todos os preparativos necessarios partimos para a crista as 7:15hs. A crista, em sua maior parte, eh uma enorme lingua de gelo com inclinacao media de 45 graus. O Campo 5 fica 200m na vertival apos terminar a lingua de gelo. A subida eh extremamente lenta; ao longe os escaladores formam um linha de pontos negros praticamente estacionada. Durante a subida me chamou a atencao um Georgiano, que sabia tudo sobre o futebol brasileiro. Pelas 11:00hs comecou a ventar e a chegar nuvens. Esta crista eh uma das situacoes mais expostas de toda a escalada. O vento comecava a dar rajadas de mais de 100 km/h e levantava a neve produzindo o chamado vento branco. A subida comecava a se tornar cada vez mais dificil, porem montanhas colossais como o Chang-Tse que faz o colo com o Everest e o Pumori comecavam a mostrar os seus cumes. Terminei a escalada da lingua de gelo e iniciei a parte de rocha. Aqui comecavam as barracas do campo 5 empilhadas sobres as rochas e sacudidas pelo forte vento - nao sei como ainda estavam ali. Fui subindo entre elas, algumas vazias, algumas ja com seu donos no interior. Estava terminando uma das partes mais dificeis da escalada, pois a partir daqui utilizariamos oxigenio artificial. Teriamos mais dois dias pela frente: o primeiro considerado "facil" ate o Campo 6 a 8.300m - umas 4 a 5 horas de escalada (com oxigenio) e o segundo, no dia 22 de maio a escalada final ao cume, aos 8850m de altitude. De onde eu estava o cume estava "tocavel com as maos", daria para ver uma pessoa no cume. Ansiedade e apreensao tomavam conta de mim. Estava perto do topo do mundo. Quando cheguei aa ultima barraca, as nossas estavam 50m a frente, veio o nosso destino - David por meio de radio informava a Rozani a sua situacao. No momento aceitei como um sinal de Deus, terminava aqui a seguranca da equipe. Nos eramos um time e como tal atuamos. Eu estava extremamente exausto e a descida teria que ser com toda a cautela, as pernas bambas teriam que ser controladas passo a passo. Logo de saida escorreguei e levei o meu unico tombo - passei rolando pela barraca dos colombianos que assustados vieram me ajudar. Nenhum dano para mim, o que nao posso dizer o mesmo para o meu macacao de pluma de ganso. Durante a descida o vento continuava fortissimo e eu me distraia com o voo do "Chuff" um passaro negro (corvo) de bico amarelo, um pouco maior que um pombo. Ele brincava com a altitude e com o vento, liftando nas reentrancias do Everest e voando em disparada a favor do vento. Fomos descendo lentamente atras de David, os cumes do Pumori e do Chang-Tse estavam la em baixo, e os gigantes 8000m Kangchenchunga e Makalu a leste, e Cho Oyu e Shishapangma a oeste na altura dos nossos olhos. O Sol comecava a se esconder atras do Chang-Tse e apesar do vento e do frio sentei na neve para sentir um pouco este momento magico. Nao pude registrar este momento pois nao podia acessar a maquina fotografica com as enormes luvas - e nao podia tira-las sob perigo de congelamento. Entao, o ceu dourado atras das colossais montanhas do Himalaia fica apenas na minha memoria. Quando alcancamos David ja estavamos bem baixo, e Sherpas de nosso time que Rozani havia chamado para ajudar ja estavam com David. Na realidade nada fizemos por David - os Sherpas se encarregaram de tudo, inclusive ajudaram a mim e a Rozani carregando nossas mochilas. Talvez Rozani e eu nao precisassemos baixar e pudessemos seguir rumo ao topo do mundo, mas nada questionei, como disse aceitei como um sinal de Deus, um sinal da montanha, que nosso limite tinha chegado. Fizemos tudo certo, cada um deu o melhor de si para o time. Entao foi para ser assim. O Everest sempre estara lah, talvez um dia ele nos aceite. No dia seguinte, 21 de maio, baixamos para o ABC, sem antes eu ir ate a barraca de Paulo e Helena, um casal de brasileiros que estao pela terceira vez tentando escalar o Everest. Porem, eles tem a proposta de chegar ao cume sem oxigenio artificial, tarefa gigantesca. Se conseguirem serao os primeiros brasileiros a chegarem ao topo do mundo sem oxigenio artificial, e Helena sera a primeira brasileira (nao sei se nao sera a primeira sul americana) a chegar ao topo do mundo. Oxala consigam. No momento estou tentando obter noticias deles. Dia 22 de maio, o nosso dia escolhido para chegar ao cume, amanheceu maravilhosamente ensolarado, o melhor dia de todos desde que chegamos aqui. Nenhuma nuvem no ceu, sem vento. Um presente. Um presente para Claire e Bertrand que voaram numa asa branca - um voo do topo do mundo. Que pena que eu nao estava lah para ajuda-los na decolagem. Fui recebe-los no pouso, no meio do Glaciar Leste de Rongbuck, junto ao ABC. Retornamos ao Campo Base no dia 23 de maio ainda sob um tempo maravilhoso. Quando cheguei ao Base o pessoal estava grudado na luneta que focava o Everest. Estavam acompanhando um guia e seu cliente da Guatemala que estavam ainda descendo do topo - estava anoitecendo. Eles passaram a noite na montanha, a mais de 8700m de altitude. Tres russos tambem passaram a noite. A sorte da dupla eh que o dia seguinte amanheceu novamente firme e a equipe de guias profissionais da "International Mountain Guides" que esta fazendo a busca do corpo de Irvine (Fantasmas do Everest) estavam do campo 6 e conseguiram fazer o resgate deles ate este campo. Isto eh uma excessao, rarissimo de acontecer. Nao hah resgate acima dos 8000m. Porem, um dos russos morreu e tambem um australiano faleceu no Campo 6. Vitoria ou derrota: nao viemos aqui para derrotar nada. Viemos sim para tentar chegar ao topo do mundo, aos 8850m de altitude do Monte Everest. Ao longo destes dois meses que aqui estamos atuamos como um time. O respeito e o trabalho maximo de cada um foi o que reinou. Chegamos ate onde a montanha quis que chegassemos com seguranca. Retornamos dos 7800m de altitude, pois a integridade fisica de um membro da expedicao esta muito acima do cume do Everest. A experiencia de conviver dois meses com esta magestosa montanha foi colossal. Espero que tenhamos conseguido passar um pouco a voces esta maravilhosa e dura experiencia que tivemos aqui e que esta montanha entre em vossos coracoes. Agora inicio o meu retorno ao meu querido pais, o Brasil, aos meus queridos familiares e aos meus queridos amigos. A saudades eh muita. Gil Piekarz ESTATISTICA: Os dias sao contados a partir da saida (24 de marco) e chegada (30 de maio) em Kathmandu Dias totais - 67 dias Noites dormidas a 2.200m - 03 Noites dormidas a 3.700m - 02 Noites dormidas a 4.300m - 04 Noites dormidas a 5.400m - 33 - Campo Base Noites dormidas a 6.000m - 06 Noites dormidas a 6.550m - 15 - ABC Noites dormidas a 7.100m - 04 - Colo Norte Kilometros caminhados entre o Campo Base e o ABC (distancia de 22Km) - 176Km Altitude maxima alcancada - 7.800m (nao usamos oxigenio) Tombos - 1 (nao esta mal neh?) Banhos - 6 (e fui um dos mais assiduos) Massa corporal perdida - 8 Kg Livros lidos - 2 (e faltou) Rolos de slides de 36 poses - 20 amizades - muitas. |
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| English Translation by Marcelo Fernando Schiocchet
When I arrived at Camp 5, at 7,800m, after climbing one of the most difficult parts of the Everest route, the magnificent North ridge, Rozani looked at me with very exhausted and apprehensive eyes, and said: -Gil, we have to go down to the North Col, David is not well. At this moment, it ended our attempt to climb the biggest mountain in Earth. We had reached the limit of the security - the physical integrity of the team members was worth much more than the mountain's summit. |
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