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O momento de parar. A nossa expedição ao Everest consumiu um planejamento de mais de um ano, esforços para conseguir o patrocínio (que no caso eu não consegui aqui no Brasil, salvo o apoio das passagens aéreas fornecidas pela Snake) necessário para cobrir os gastos da expedição que beiraram os US$200.000,00 (duzentos mil dólares); gerenciar uma licença de 3 meses no emprego, e ficar sem o salário nestes 3 meses, ficar dois meses acima dos 5.400m de altitude, num clima e em condições onde a vida humana não é possível, perder mais de 10 kg em peso; comer e beber por pura obrigação, sem prazer; ficar dias dentro da barraca, pois fora dela o clima não pemitia, e quando saia era para fazer longas jornadas para altitudes onde o vento, a temperatura e a falta de oxigênio eram quase insuportáveis. Tudo isto para chegar a um único ponto, ficar poucos minutos e voltar o mais rápido possível, sabendo de antemão que muitos morrem na volta, outros não conseguem chegar a tempo nas barracas antes que a noite caia e ficam com fortes sequelas (congelamentos); isto quando conseguem sobreviver. Então, porque tentamos escalar estas grandes montanhas? muitos devem se perguntar, e aqueles que não são do "meio" realmente não conseguem entender, o que é lógico. Para mim a escalada da alta montanha não é apenas um esporte em si, mas também um "hobby" e principalmente um JOGO. Um jogo pessoal, de eu junto a mim e contra mim. A montanha é apenas o campo para jogar, e o cume a taça pessoal. Como muitos devem imaginar, erroneamente na minha interpretação, sair do jogo é extremamente fácil, pois um dos jogadores adversários é o fator psicológico do questionamento do "o que eu estou fazendo aqui", porém, desistir de continuar jogando é frustante, é desperdiçar e jogar fora com enorme prejuízo pessoal, todas aquelas dificuldades vencidas e citadas no início. A não ser que o motivo da desistência esteja muito acima do cume da montanha. E foi o que nos aconteceu. A chance de chegarmos ao cume do Everest era enorme, pois havíamos vencido duas, das três grandes dificuldades de escalar o Everest pelo Tibet, e a nossa estrutura para a terceira grande dificuldade, a etapa final de ataque ao cume, era perfeita com oxigênio artificial praticamente à vontade e uma equipe de Sherpas para nos ajudar. Voltamos porquê um membro da equipe estava em dificuldades e nós éramos um time, além de, principalmente, amigos. No momento a sensação foi aquela que eu descrevi, de alívio; o corpo e a mente agradeciam, ao mesmo tempo em que fiquei triste em ter que sair do jogo, porém nunca frustado. E quem são os jogadores que participam? se sou eu comigo e contra mim? e a montanha apenas o campo? A favor estão: o preparo físico e psicológico prévio, o mesmo dos companheiros, a organização prévia, a estrutura montada, os cuidados e facilidades com a alimentação e hidratação, os equipamentos adequados, disponibilidade de oxigênio e de Sherpas para ajudar, o ambiente motivacional e de respeito entre os membros do time, ser um time, e a vontade suprema de chegar até o limite com segurança. O Everest foi o campo, com suas armadilhas, como o ar rarefeito, o frio, o vento, as dificuldades técnicas, avalanches. Os adversários: eles estão dentro de nós mesmos. A montanha nunca é o adversário. Além do clima, os principais adversários são as condições impostas pelo ambiente ao nosso corpo e mente. Quando subimos para altitudes cada vez maiores necessitamos de um aporte maior de calorias, porém não conseguimos nos alimentar de modo adequado. Náuseas e inapetências aos alimentos ocorrem e começa-se a forçar a alimentação - eu amagreci 10 kg após 2 meses nas altitudes; também a diminuição drástica da pressão obriga o coração a trabalhar muito mais, ocorre a hiperventilação com uma perda enorme de líquidos e quanto maior a altitude, mais seco é o ar. É necessário beber mais, e como com a comida, beber é difícil, não é um prazer e sim mais um "trabalho"; é o ambiente obrigando o nosso corpo a descer. No entanto, o adversário mais poderoso não são estas reações fisiológicas mas sim a mente. Ela começa a nos desestimular a continuar subindo, pois estamos indo para altitudes onde a vida não é possível e ela sabe disso, tenta nos salvar. Os primeiros sintomas é que a escalada começa a perder o sentido e o pensamento do "o que é que estou fazendo aqui" começa a ficar cada vez mais forte. Alguma parte de nós resiste e então ela inicia um processo ainda mais duro e selvagem. Saudades e sentimento de culpa começam a aflorar. Saudades de tudo que temos aqui, família, amigos, lugares. O medo de não voltar e de não ver mais as pessoas e as coisas queridas; o sentimento de culpa por estarmos ali por nossa própria vontade e de nos expormos ao perigo de não participarmos mais da vida aqui na Terra. Realmente é um jogo fascinante, e terrível ao mesmo tempo. Àqueles que querem se aventurar por estes meios é fundamental a consciência destes fatores e, sobretudo, saberem o momento de parar, por sua vida ou pela vida de um companheiro. Agora, aqui sentado em frente ao computador, em temperaturas agradáveis e com muito oxigênio para respirar, seria uma grande hipocrisia de minha parte dizer que estou frustado por não ter chegado ao cume do Everest. Obviamente eu estava lá para isto. Porém o gigantismo do Everest não permite, de modo sincero, este tipo de sentimento. O fato de ter estado em suas encostas por mais de 2 meses, com um verdadeiro time, foi para mim uma experiência extraordinária. Chegar ao cume, ao topo da montanha que nos propomos a chegar é muito bom e muito importante. No entanto, isto não é o mais importante, o mais importante é tentar, sempre tentar, é participar do jogo, e nunca, mas nunca mesmo desistir daquilo que se propõe. Gil. |
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